Carreira, Cultura Digital

Por que tantos intelectuais são chatos?

Não se deixe enganar pela pose: Theodor Adorno é chatérrimo.

Os últimos dias têm sido intensos, para se dizer o mínimo. Terminei uma pesquisa extensa em que abordo, sob as perspectivas pós-moderna, construtivista e colaborativa a utilização de leis de potência e sua aplicação em wikis e blogs para a criação de processos de emergência, tanto em sala de aula como no ensino à distância (apesar da abordagem “acadêmica”, é um tema bem legal, garanto). Uma versão simplificada dele é narrada pelo Yassuda ao comentar o blog do Danton e uma iniciativa embrionária que comecei na ECA-USP.

Além da tese, nas últimas semanas também tenho gravado um conjunto de entrevistas para um podcast que deve ir ao ar em breve, organizado pelas equipes bacanas da Jump Education e Estúdio Billy Umbella. A cada nova entrevista, alguém muito fera me ensina coisas mais bacanas. É deles que quem me acompanha no Twitter ouve falar de vez em quando. O projeto vai bem, já foram várias sessões. Se eu falar mais corro o risco de estragar a surpresa, então paro por aqui.

Para mim, o que há de mais fascinante no contato com outras áreas de conhecimento (ou seja, no aprendizado) é a ampliação de horizontes, o que cria uma perspectiva muito mais ampla do mundo e, naturalmente, da própria profissão.

Quanto mais alguém se especializa, mais precisa tomar cuidado para que a profundidade do conhecimento não resulte em uma limitação. De tema, de área, de ponto de vista - de visão, enfim. Por mais fascinantes que certos assuntos sejam para um indivíduo, nada garante que eles o serão para os outros. Conheço muita gente tão brilhante quanto chata, que fora de suas áreas de atuação é incapaz de manter uma conversa de elevador, e estou certo que você deva conhecer tantos quantos.

(Um livro bom para mostrar como perspectivas diferentes levam a novas formas de encarar a realidade e, por elas, a grandes idéias criativas é o manjadíssimo Freakonomics. Se você não o leu, leia. Se já o leu, veja os livros do Dawkins, do Johnson, do Barabási - e jogue pela janela qualquer “guia rápido sem esforço para os 7 passos de inovação de sucesso furioso ou qualquer variação sobre o mesmo tema que tenha ido parar na sua estante)


Respondendo à pergunta do título, acho que as pessoas que só falam de uma coisa não o fazem por insegurança, ostentação ou arrogância, mas por paixão e fascínio. Como pais ou avós de primeira viagem, eles se enamoram de suas descobertas e vivem em função delas. O que eles parecem não ver é nem todos acham lindo o cocô da fralda do sobrinho.

(atualização importante, caso você não saiba: Karl Marx morreu - taí a lápide.
Divulgue na sua universidade. É hora de falar de coisas novas)

Portanto, tenha em mente que gosto não se discute e que, ainda bem, tem gente que se empolga em ser dentista ou veterinário. Tente descobrir as coisas interessantes da sua área e, sempre que possível, traduzi-las. Ainda mais se você tiver um blog.

Karajan, por exemplo, era fantástico: um dos maiores regentes de orquestra do mundo, que também pilotava motos, barcos e aviões. Richard Feynman e Johann Sebastian Bach também eram muito gente boa. Quer melhor exemplo de conduta?

De qualquer maneira, de nada vale um monte de coisas aprendidas se você não tem tempo para descansar e reinicializar o cérebro. Por causa disso, vou tirar um tempinho para recarregar as baterias e daqui a pouco eu volto. Prometo.

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