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Março de 2004

Ilusões

De como construímos o real e – portanto – não podemos acreditar nele.

Nikolay Andreyevich Rimsky-Korsakov era um marinheiro que viveu na segunda metade do século XIX. Não que gostasse da profissão, na verdade seguia uma tradição de família se tornando Cadete Imperial aos 12 anos. O rapaz tinha gosto para a música, mas como já naquela época isso não dava exatamente dinheiro, acabou por pegar um Vapor e correr mundo. Só 15 anos depois é que foi perceber que a música era importante demais para a sua vida e começou a considerar viver dela. Dois anos depois largou a marinha e correu atrás do tempo perdido: foi o autor da primeira sinfonia russa – que escreveu quase sem saber tocar nenhum instrumento – e, aos 44 anos de idade, compôs a Suíte Sinfônica Scheherazade, Opus 35.

Ambientada no Oriente Médio e inspirada nas histórias de Mil e Uma Noites, Scheherazade é quase mágica: apesar do autor dizer que não quis pintar nenhum quadro específico, só guiar a atenção do ouvinte em lugares em que esteve, a imagem do Sultão amargurado que quer matar todas as mulheres com quem se casa até ser cativado pelas histórias da mocinha é evidente. Com ela, surgem também o aroma de especiarias, tapetes voadores, castelos com torres abobadadas, mulheres misteriosas, véus, dança do ventre, camelos… tudo de sexy e exótico das “Noites Árabes” (título original das histórias, como traduzido pelo explorador inglês, sir Richard Burton).

Inspiradora de balés, óperas, peças de teatro, filmes de Hollywood e seriados de TV, essa suíte sinfônica praticamente resume tudo o que conhecemos por “Oriente” em nosso imaginário. É de uma divertida ironia pensar que foi composta por um russo no inverno gelado de São Petesburgo. Com um pouco de discernimento, fica até engraçado imaginar violinos e pausas dramáticas naquele areal todo, mas aí é estragar o clima.

Clima? Sem dúvida. Quem cria ambientes – sejam eles reais ou virtuais – depende imensamente da cumplicidade de seus visitantes, sob pena de fazer papel de ridículo. Pode-se dar o nome que quiser a essas peças de design, mas elas nada mais são que ilusões cenográficas e, como tal, devem ser esculpidas com muito cuidado para que não desmoronem. Afinal, por mais que haja samba e swing no Taj Mahal do Jorge Benjor, ninguém poderá levar aquele teteretê a sério como descrição de costumes indianos.

Mas o que é realmente importante para os artesãos de ilusões (gostou? Tem bem mais charme que dizáiner, não?) é saber diferenciar a imagem da realidade e, portanto, saber discernir o que deve ser mostrado e o que deve ser acreditado. Como traficante de falsos cenários, o profissional não pode ser viciado neles, muito menos dependente deles.

Falar é fácil. Com os prazos apertados, a falta de boas referências e gosto dos clientes inversamente proporcional a seu poder de decisão, pensar em cenários parece tão irreal quanto fazer uma crítica da Nouvelle Cuisine em um restaurante por quilo. Não poderia ser mais verdade, mas pense: por que você trabalha? Se o dinheiro for a resposta, a profissão talvez seja errada – talvez, como o camarada Nikolay, você deva passar um tempo em um emprego bem sem graça para acumular um capital. Se, ao contrário disto, design for parte da sua vida, sugiro reconsiderar: a pressa passa, seu portfólio fica. E dizer “ganhei uma bala para fazer essa m…” não vai impressionar ninguém.

Por isso, quando bater o desânimo, pense em Shakespeare: ele também tinha deadlines (acredito que bem mais mortais que as suas), briefings (não acredito que o Rei Henrique IV fosse um tema espontâneo) e propostas irreais (não se tem notícia que ele tenha viajado para o Novo Mundo para escrever Tempestade). Mesmo assim, cada verso da sua gigantesca obra é um espetáculo, a ponto do crítico literário Harold Bloom compará-la a uma Escritura sagrada. Acredito que ele será mais lembrado pelas futuras gerações que George Soros. Ou Bill Gates. Ou Lênin.

Citando o homem, “nós somos a matéria da qual os sonhos são feitos, e nossa pequena vida, rodeada por um grande sono”. Não crer nisso em um ambiente que a estética anoréxica da moda feminina é ditada por estilistas gays só pode ser uma infantilidade da razão. Para a sua próxima peça, pense no que Caetano diz em Outro Retrato: “Minha música vem da música da poesia de um poeta João que não gosta de música. Minha poesia vem da poesia da música de um João músico que não gosta de poesia”. E faça diferente. Para fazer a diferença.

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