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Junho de 2005

Democracia, controle e fetiche

Você e os pastores evangélicos agora têm algo em comum: podem montar uma rádio.

Blogs, fotologs, videologs, podcast, tudo em RSS… nunca a internet apresentou tantos pontos de vista simultaneamente atualizados, customizáveis para qualquer máquina. Se antigamente eram necessários diversos profissionais (inclusive você, designer) e um emaranhado de conhecimentos técnicos para se colocar no ar uma mensagem, pode-se dizer que hoje a democracia chegou. A ponto de praticamente qualquer um poder publicar conteúdo, mesmo que não saiba programar, não tenha computador e nem ao menos algo interessante a dizer.

Democracia? Perdão, o termo correto para esse sistema é anarquia – para a democracia se pressupõe uma decisão em conjunto, em que a voz da maioria reunida propõe uma solução comum a todos, que deverá ser engolida a seco pelos opositores. Estamos tão habituados a falar em seu nome que nos esquecemos seu real sentido. Olhando-a detalhadamente, parece coisa do século passado. Ou melhor, de 20 séculos atrás.

Winston Churchill já dizia que a democracia não é o sistema perfeito, mas o melhor disponível: a idéia que agrade à maioria ser mais importante que as outras, mesmo que sejam melhores, provoca desconfiança. Em um mundo digital, conectado e acessível, chega a causar estranheza. Se posso ser feliz com minha comunidade e distribuir abertamente minhas opiniões, por que deveria me contentar com uma série de reuniões e a uma lerdeza sem fim, como vemos Congresso Nacional ou em reuniões com meus clientes?

Já no ambiente anárquico proporcionado pelas tecnologias digitais, tudo é muito rápido e intenso, feito criança hiperativa: cada um fala o que bem entende e não se chega a lugar nenhum, nem é esse o propósito. Quando promovemos a democratização da publicação de conteúdo o que acabamos conseguindo é uma enorme anarquia. Isso, em teoria, não seria ruim. Pelo contrário, poderia ser até bastante rico, interessante e intelectualmente estimulante, não fosse nossa enorme necessidade de busca por controle.

O ser humano é, em essência, um control-freak. Boa parte de nossos avanços tecnológicos – como boa parte do estrago que fazemos uns aos outros e ao planeta – vem de uma enorme insatisfação que se tem com o estado das coisas. Para esse tipo de personalidade, a informação customizada e adaptada às preferências particulares, entregue automaticamente, parece uma bênção.

Mas não é. Ao mimar o público e permitir a ele o consumo de qualquer tipo de informação, elimina-se o confronto e, com ele, qualquer espécie de aprendizado. Assim, corre-se o risco de fortalecer preconceitos e hábitos, uma vez que é tremendamente confortável nutri-los.

Para se aprender a ouvir boa música é preciso tempo e paciência. Para se desenvolver senso artístico e estético também. Ao nos permitir o controle sobre o que vemos e de que forma isso ocorre, as tecnologias digitais nos fazem crer erroneamente que exercitamos um senso crítico e autocontrole maior, quando é exatamente o contrário: nos permitimos um consumo desmedido de nossos próprios vícios, sem censura. É por isso que pornografia é tão popular na rede.

Ao enfatizar a eficiência da tecnologia – em vez de se perguntar qual é o processo que a tecnologia torna mais eficiente – evitamos perguntas difíceis e esvaziamos qualquer manifestação artística de seu contexto e significado, transformando-a em entretenimento vazio, que não estimula os sentidos. Muito pelo contrário.

A música, por exemplo. Ao removê-la de seu contexto e torná-la portátil, o walkman a banalizou. Ao eliminar a ordem e seqüência imposta pelos CDs, o resto que havia de ordem e intenção se foi. Na maior parte das suas aplicações, a música virou um acessório de decoração.

Diz-se que o que amarra todas essas tecnologias é o conforto e a satisfação das necessidades. Mas de que necessidades se fala quando se trata de cultura? Em um mundo que o usuário pode exercitar um controle sem precedentes sobre o que vê e escuta, é possível evitar conscientemente idéias, sons e imagens com as quais não se concorda ou de que não se gosta. Quanto maior o controle, menos preparado o público está para ser surpreendido. E assim se torna incapaz de aceitar qualquer coisa além de seus hábitos e preconceitos.

Com as necessidades satisfeitas, o consumidor de cultura é radicalmente e perigosamente mimado, o que encoraja a polarização, radicalização e alienação. Encontros não planejados são centrais para a democracia e para a evolução.

Na nossa pressa em buscar o mais rápido, conveniente e individualizado, dificilmente criaremos algo além de câmaras de eco sofisticadas, em um individualismo vazio e estreito. Quanto mais conveniente for o entretenimento, mais fraco o impulso de enfrentar os desafios apresentados por expressões estranhas de cultura.

A antiga “aura” da arte reside agora nos aparelhos tecnológicos em que ela é reproduzida. A esse novo ritual em busca do completamente personalizado não se chama de arte. Seu culto desmedido não é religião. É fetiche. E, ao contrário da arte e da religião, que nos encorajam a transcender nossa própria experiência, o fetiche nos fixa obsessivamente a produtos e nos escraviza a eles.

As máquina não fazem promessas nem têm demandas – é o espírito humano (a que a tecnologia está a serviço) que as têm. Seus potenciais excessos levam a uma vasta impaciência cultural e ao triunfo da escolha individual por sobre todos os padrões críticos.

Se esse assunto interessa a você, vale a pena checar uma peça de ficção aterrorizante em http://oak.psych.gatech.edu/~epic/

Vale a pena colocar uma imagem do vídeo indicado neste link em vez de ilustração. Aliás, gostaria de ter em meus artigos uma tela de site em vez daquelas ilustrações que às vezes não têm nada a ver com o que escrevo. É possível?

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