Respeito não faz bem a ninguém
Muita gente fala em talento específico para direção de arte e design, seja ela em qualquer mídia (embora em breve todas as mídias sejam vídeo, mas isso é outra história). Por mais que alguns espertos queiram defender uma reserva de mercado, ninguém nasce sabendo e já é senso comum que até o mais talentoso designer precisa de educação e reciclagem para não se atolar no mercado. O que poucos param para pensar é que pode-se martelar por aí a falta de acesso às boas escolas ou mesmo a exclusão digital, mas o fato é que as boas escolas não costumam ensinar muito mais que um bom livro ou conversa. Às vezes, menos até. Principalmente quando o assunto é o processo criativo.
O fato real é que o profissional de criação de produtos de comunicação (de anúncios a websites) tende a ser muito preguiçoso, ególatra e reciclante. Poucos procuram desenvolver sua capacidade de percepção visual, ou mesmo seu texto – e para fazer isso só se é preciso ver e ler, mas ver e ler as coisas certas. Não é se visitando website que se aprende a fazer webdesign, muito pelo contrário – isso tende a restringir o horizonte criativo, pois a maioria das soluções é muito, muito parecida. A mesma coisa pode ser dita sobre texto: quanto mais se lê, mais rápido se lê e melhor se escreve. Em países de melhor educação e mercado mais desenvolvido (que é muito mais fácil de chamar de “primeiro mundo” que buscar as verdadeiras razões para seu sucesso), designers são críticos de arte ou curadores de exposições, redatores escrevem romances nas horas vagas.
Pois ao contrário de matemática, física ou filosofia, que precisam de altas doses de raciocínio abstrato, ou de áreas técnicas que demandam equipamento caro e especializado, os objetos de estudo para o processo criativo estão verdadeiramente ao alcance de qualquer um. Aliás, a maior queixa que se faz em nosso país é que esses espaços são, geralmente, muito pouco freqüentados. Me refiro a museus e bibliotecas – quantas vezes você já foi a algum deles neste mês? Bimestre? Semestre? Ano? Biênio? Qüinqüênio? Vida? Por que a maioria das pessoas só os visita quando viaja, se é que os visita?
Muita gente reclama da baixa ocupação dos museus, mas parte da culpa é de seus organizadores. É certo que obras de arte devam ser admiradas, mas há um exagero na forma com que se tratam artistas e correntes. Em muitas exposições, é mais complicado entender o texto de apresentação que as obras mostradas. Alguém enfiou na cabeça deles que ser intelectual significa escrever difícil, e muitos fazem questão de apresentar as peças em códigos herméticos, com textos incompreensíveis. Isso, para mim, só dificulta o acesso.
Assim, os que se dedicam a estudar arte clássica passam a pertencer a uma espécie de ordem secreta – os Eruditos – e colocam barreiras sobre barreiras para dificultar o caminho de quem queira admirá-las sem compromisso. As artes “populares”, por sua vez, fazem exatamente o contrário. O resultado é pra lá de previsível: mesmo nas lanchonetes das melhores universidades e escolas de arte, discute-se Quentin Tarantino vs. Pedro Almodóvar, Walt Disney vs. Cartoon Network, mas nunca Renoir vs. Cézanne – quem os faz é “culto” (ou pedante mesmo). Juro que adoraria ver escrito na parede de entrada de uma exposição: “Van Gogh é brilhante e deprê. Antes ele que você. O resto é por sua conta.”
As pessoas parecem ter vergonha de expressar sua ignorância, ou de tentar acabar com ela. É mais chique ter preconceito com relação a um tipo de manifestação (cinema iraniano, por exemplo) que confessar sua ignorância sobre o tema. O mesmo acontece com a música, clássica ou até gêneros mais modernos, como Jazz. Por mais que tenham nome, Thelonious Monk ou Miles Davis são “só” música, consumi-los dá o mesmo trabalho que Brahms, Beethoven, Beatles, Backstreet Boys ou Britney Spears.
No século passado, alguns movimentos mostraram que “arte” é uma forma diferente de se olhar para um objeto. Para eles, qualquer coisa poderia virar arte, qualquer coisa MESMO, até um bidê ou uma foto de jornal. Seu alvo predileto? A Mona Lisa, tão falada em tempos de Código Da Vinci. Marcel Duchamp desenhou um bigode e cavanhaque sobre uma reprodução dela e escreveu as letras L.H.O.O.Q. embaixo (em francês, essas letras têm o som de “ela tem um traseiro quente”). Mais tarde, Andy Warhol reproduziu a Gioconda em telas de silk screen, e fez o mesmo com a Santa Ceia. Hoje, Warhol e Duchamp são “arte” e, para vê-los, é necessário cruzar a porta de algum santuário – talvez até peregrinar para ele – e se ajoelhar perante a divindade. É uma pena.
Por isso, se você pretende fazer bom design, sugiro uma mudança de atitude que pode ser bem diferente do que ensinaram na escola. Você deve concordar comigo que nenhum dos grandes artistas (nem mesmo Pablo Picasso) é um semideus. Se é assim, deixe de ver a obra deles como intervenção divina e a veja como quem examina se um tomate está bom: olhe por todos os lados, tire suas conclusões e faça a sua própria interpretação. É melhor não gostar de Rembrandt que não saber nada dele, e o mesmo vale para texto. É melhor ler uma versão simplificada de Hamlet que procurar o original só para saber – pedantemente – citar o “ser ou não ser” em inglês.
Por falar em inglês, faça como os britânicos e americanos fazem e torne a visita a um museu um programa divertido, como quem vai conhecer uma nova cidade, não como quem toma vitaminas para aumentar a “cultura”. Uma vez lá dentro, se uma sala chamar a sua atenção, tente pensar no que passou pela cabeça do curador ao organizá-la. Qual foi seu critério, por que as obras estão dispostas dessa maneira e assim por diante. Em vez de fotografar os quadros (você sempre poderá comprar um postal muito melhor, sem contar que não vai tomar uma bronca do segurança), experimente examiná-los como se fossem fotografias – repare no enquadramento e, principalmente, na luz. Não na iluminação do museu, mas nas cores que o pintor usou para reproduzir luzes e sombras.
Um dia, quando você menos esperar, verá na foto que está prestes a bater uma cor especial, uma coisa meio Rembrandt.
A mágica está feita. E não tem volta.
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