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Janeiro de 2007

Sobre marretas, consumo, atitude e web 2.0

Como ser estrela em uma sociedade que o espetáculo é a única forma viável de expressão.

Tudo parece ter começado como uma brincadeira de um grupo de estudantes canadenses que não tinham mais o que fazer. Cansados de todo o barulho de mídia para o lançamento do iPod nano, eles tiveram uma idéia tão inesperada quanto divertidamente genial: coletar dinheiro de um grupo de amigos, ir até uma loja da Apple, lá comprar um desses aparelhinhos e destruí-lo no balcão da loja. Registrando, é claro, tudo em vídeo.

A idéia, de tão completamente absurda, acabou atraindo a curiosidade geral. Aos poucos, mais e mais colegas desses malucos resolveram colaborar com cinco ou dez pratas, por diversos motivos. Imagino que o principal deva ter sido a diversão com a coragem e cara-de-pau desses doidões. Algo do tipo que você certamente já fez ou viu fazer na vida, como “te pago uma cerveja se você tiver a coragem de pular naquela piscina”. Por isso, não adiantava apenas destruir o brinquedo: era fundamental registrar o ato.

Gosto de imaginar que outro motivo bastante razoável para contribuir com dinheiro para tal plano diabólico possa ter sido uma resistência inconsciente à cultura do design e ao culto aos objetos como fetiche pós-moderno. Olhe à sua volta e você perceberá que para a maioria das pessoas é mais importante o aparelho que seu conteúdo. Nessa relação de valores tortos, ter um iPod é mais importante que a ter nele músicas de boa qualidade, ter um notebook de última geração é muito mais importante que qualquer trabalho realizado nele, um carrão importado é gigantescamente mais importante que o imbecil que o dirige e assim por diante… irritados com a ditadura do consumo, muitos podem ter pago o equivalente a uma refeição leve no McDonald’s local para se ver vingados por um anti-herói que marreta um ícone adorado por muitos de forma quase religiosa.

Seja qual for o motivo, racional ou irracional, ativista ou simplesmente mega-nerd, o fato é que a brincadeira acabou se transformando em um website (smashmyipod.com). Nele, nada de explicações. Apenas um fórum bagunçado, um design vagabundo e um monte de informações contraditórias, nenhuma delas de conotação neo-comunista ou histérico-ong. Ainda bem. Como um bom filme ou piada, qualquer esforço para explicá-lo só tende a diminuir seu impacto.

Graças a ferramentas de transferência de microcrédito, como o PayPal, os malucões acabaram por conseguir os dólares de que tanto precisavam. E cumpriram a promessa, para desespero dos presentes e do staff da loja que, chocados diante de tal sacrilégio, chamaram a segurança e, no melhor estilo Jihad, proibiram os moleques de entrar naquele shopping center pelo ano seguinte.

Para muitos de nós, viciados (ou simplesmente acomodados) com o consumo, uma punição deste porte já seria o suficiente. Mas não subestimemos nossos heróis e a gigantesca falta de noção que só os vinte e pouquíssimos anos são capazes de providenciar. Meses depois, foi a vez do Xbox.

Dessa vez, a estratégia precisava ser refinada. Não bastava chegar na loja e quebrar o brinquedo. Para que a pancada fosse realmente grande, o website foi usado durante meses para gerar uma espécie de expectativa ao contrário. Antes do tão esperado lançamento do console, o dinheiro já estava lá. Na véspera do lançamento, eles acamparam na porta da loja, como muitos outros fãs da tecnologia. Depois de muita espera, chegou a sua vez: compraram algo que quase ninguém no mundo tinha, só para marretá-lo com vontade. A Microsoft arregalou os olhos. Seus inimigos espalhados pelo mundo exultaram.

No final deste novembro, eles repetiram a dose com o PS3 e com o Nintendo Wii. Cientes que o espetáculo é muito mais importante que o aparelho, sua vestimenta fica mais e mais arrojada a cada atividade. Os depoimentos e gestos de fé, paciência e fascínio fazem a alegria dos repórteres e câmaras de TV, todos crentes que ali está um fiel exemplar dessa “nova geração”. Flashes pipocam. Pouco depois, a marreta desce, para o desespero de consumidores, funcionários, segurança e público geral completamente perplexo. Em desprezo, alguns se referem ao ato como coisa de nerd, quando é justamente o contrário.

Para minha enorme alegria, a única coisa que não muda em suas atividades cada vez mais populares e arrojadas é seu discurso. Nada de político, nada de humanitário, nenhum protesto zangado contra esta ou aquela corporação, apenas o enorme desprezo e desapego de alguém que comprou um objeto – e, exercendo seu pátrio poder de direito legítimo, o destrói. Que alívio, meus heróis não se renderam ao “sistema”.

Uma atitude dessas pode não parecer resistência, mas é. E como. Porque faz pensar, leva a rever, questiona o que aceitamos como “certo” e “errado”. Há menos de um século, Marcel Duchamp expôs como arte uma coleção de objetos como uma roda de bicicleta e um ferro de passar roupa. Magritte pintou um quadro de um cachimbo e escreveu embaixo que aquilo não era um cachimbo. Também não foi levado a sério.

Os vídeos foram parar no site deles. Os aparelhos destruídos são negociados no eBay. Cada aparelho quebrado (iPod, PS3, XBox, Wii) ganhou um novo site. Neles, nenhuma explicação. As críticas e ofensas estão lá, abertas e explícitas. Algumas têm fúria taleban.

Antes que você pergunte obviedades do gênero “mas o que isso tem a ver com design” ou “não seria melhor dar esse dinheiro para os pobres”, pense duas vezes: aquilo que se chama por aí no mundo de web 2.0 nada mais é que a real possibilidade de dar ao indivíduo comum uma voz para que ele possa se expressar. Se o que ele tem a dizer é relevante, não faltarão ouvidos no mundo. Se ele puder ajudar as pessoas a tomarem consciência do vazio existencial de uma sociedade de consumo, sua contribuição será inestimável. E isso certamente poderá ajudar muito mais as populações necessitadas que um punhado de notas verdinhas.

A propósito, por uma divertida coincidência, o link de sua última destruição chegou para mim uma semana depois do ato, exatamente no dia em que ONGs barbudas, cabeludas e furiosas pregavam o “buy nothing day” – dia internacional de resistência ao consumo de massa, instigando as pessoas ao redor do mundo a não comprarem nada. Irônico, não?

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