Lixo, dejetos femininos, colaboração e invisibilidade
Antes que algum novo guru de auto-ajuda cibernética se apresse a definir que a web 2.0 e seus desdobramentos estão a influenciar uma nova forma de se encarar o mundo no século XXI, proponho aqui que você pense o contrário. Por mais revolucionária que a internet se proponha a ser, lembre-se que ela é só uma forma de comunicação, portanto apenas um reflexo das mentes de seus bilhões de usuários. Nada surge, nada se destrói no ciberespaço. Como na lei de Lavoisier, tudo também se transforma.
Prosseguindo nessa linha de raciocínio, dá para se considerar que suas páginas nada mais são que manifestações claras, rápidas e bastante visíveis de uma nova forma de se pensar que já vem tirando o sono de muita gente há algum tempo. A rede é a flor, nós somos a árvore. Sites e Blogs nascem e morrem a cada dia; são as idéias por trás deles que os fazem vivos.
Ao propor como principal valor a colaboração, as inovações nada trazem de novo. Você aprendeu há muito tempo que o homem é um animal social. Que nenhum homem é uma ilha. Que a união faz a força. E que é isso, e não o polegar opositor, o fogo ou o átomo que o faz verdadeiramente Sapiens.
Antes do Iluminismo, não havia mente sã na face do planeta que acreditasse ser capaz de, sozinho, fazer verão. Graças a isso tomamos conta do mundo. Mas o poder embriaga, e não precisa muito para perceber que, nos séculos recentes, nossa espécie se embebedou de si mesma. Hoje, com o fim dos recursos e a desconfiança generalizada, começamos a ver que o porre narcisista está perdendo a graça. Quando os principais formadores de opinião chegam às conclusões que “dinheiro não traz a felicidade”; que “quem tudo quer, tudo perde”; e que “quanto maior o salto, maior o tombo”, começa a se tornar clara a ressaca Tsunâmica que se avizinha.
Por uma mistura de valor, medo e pragmatismo, o século XXI – e a web 2.0 – nos força a encarar o próximo. Em alguns casos, até a oferecer a outra face a ele. Com quase uma década de atraso, começa a se tornar claro que, para se entrar em tempos efetivamente contemporâneos é necessário deixar para trás aquele que foi o grande motor dos séculos passados: o egoísmo.
Egoísmo? Pois é. Que feio, não? Com tantas palavras belas que marcaram o auto-engano do fim do século, acabamos sobrando com esta. De empreendedorismo a globalização, de nacionalismo a livre concorrência; de isonomia a oportunidade, a grande maioria das conquistas da sociedade atual é auto-centrada, narcisista, impecável, insossa, masturbatória como o ato de se ouvir músicas aleatórias em um iPod. Belo legado histórico. Bem-feito.
Há mais de dois milênios e meio, o Tao Te Ching já dizia que grandezas opostas são geradas umas das outras, se complementando. O belo gera o feio. O rico cria o pobre. O longe define o perto e assim por diante. Se fosse escrito hoje, em tempos de obesidade e anorexia, de Somália e Sex&The City, de Osama e Enron, talvez mudassem os exemplos. Ou nem isso.
E o que sobra para fazer aos filhos de uma ética e uma estética auto-centradas? Para começar, todos devemos nos considerar parte de um ambiente maior que, como o mar, envolve muita gente. Ninguém está sozinho. E para considerar o outro, você só precisa lembrar-se que ele existe. Só isso. Já é um grande salto.
A maioria das coisas ignoradas hoje tende a trazer dores de cabeça no futuro. Do Iraque à pobreza na África, dos desastres ecológicos ao aquecimento global, boa parte das crises atuais poderia ser evitada com um pouco de raciocínio. Hoje desperdiçamos água. Há meio século economistas definiam a natureza como um bem inesgotável.
Mas não precisa ir longe. Pense nas coisas que você considera invisível, se é que considera. O lixo, por exemplo. Muita gente consciente e limpa, que se orgulha de reciclar papel, tende a esquecer que os dejetos produzidos não desaparecem quando se fecha a lixeira – eles vão para algum lugar, por mais desagradável que seja pensar nisso. Quer um exemplo ainda mais prosaico? Pense nas mulheres de sociedades “modernas” como a nossa. Delas não se admite que tenham pêlos ou que façam cocô. A Burqa é realmente pior?
A essência da colaboração está na visibilidade. Para terminar esse artigo de forma otimista – sou um otimista incorrigível, sempre acredito que o pior já passou – proponho a você que utilize seus maravilhosos sentidos e, como dizem os Chineses, observe, escute, cheire, saboreie e sinta o mundo à sua volta antes de emitir a sua opinião.
Comece pequeno, com seu ambiente de trabalho. Seu cliente é gente como você. Seu fornecedor também. Ignorá-los e culpá-los (como antigamente se ignorava e culpava a gráfica) não funciona mais. Depois disso você pode passar a considerar as pessoas que trabalham à sua volta e que contribuem para que seu dia seja menos pior, da limpeza à polícia. Se você acabar por boicotar certos produtos ou produzir menos lixo, tanto melhor para todos nós.
Popularity: unranked [?]
Comente este post ou dê um link do seu site.
Acompanhe esses comentários.
Seja legal, não fuja do tópico.
Não faça nada que você não faria.
Se souber HTML, pode usar essas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>