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Junho de 2007

Créditos de Design

Como pegar carona no aquecimento global para se dar bem em design.

Um dos fatos mais controversos de toda essa história de aquecimento global (e de sua contrapartida na compra/produção de créditos de Carbono) é ver a ecologia ser eleita à categoria de rainha do Politicamente Correto, ultrapassando em muitos casos a dupla “Inclusão&Cidadania”. Isso pelo menos em teoria, já que todos sabemos que uma empresa porcalhona que invista somas consideráveis em campanhas de plantio de mato logo passa a ser considerada linda.

Mas como falar de tendências está na moda, proponho a você que pegue carona nessa onda e se junte a uma nova corrente de integração, ativismo e mobilização global que pode fazer com que sua tão injustiçada profissão seja finalmente reconhcida, valorizada e, se você der (muita) sorte, poderá até ganhar algum com isso.

A proposta é simples e só depende de motivação - ela consiste em explorar o sentimento de culpa e encher a paciência de todo mundo ao levantar a questão do crescente “enfeiamento” do mundo dito civilizado, que, se continuar a progredir nas taxas atuais, poderá emporcalhar cidades inteiras em pouquíssimo tempo. Uma boa linha de argumentação apelaria para as consequências desastrosas de atos inocentes do dia-a-dia.

Você pode dizer que tudo começou com a caneta Bic. Sim, ela. Sua aparente transparência oculta a tenebrosa habilidade de permitir a qualquer um - repito, QUALQUER UM - a capacidade de rabiscar uma superfície, deixando registrados rabiscos hediondos para a posteridade. Junto com sua comparsa, a folha de papel sulfite, ela infestou os espaços públicos e acabou por levar a nobre Caligrafia à extinção.
A lata de tinta spray, o admin de um blog e uma impressora são extensões desse processo.

O computador é outro ponto importante para a emissão de componentes de enfeiamento global. Sob a máscara da “democratização da publicação”, ele permitiu a proliferação de pragas visuais terríveis - clip-arts da Microsoft e CorelDraw, Arial, Comic Sans, texturas, splashes, animações prontas de PowerPoint e tantas outras sujeiras que não cabe avaliar em um periódico respeitável como este.

O que falar da Internet, reservatório de todos os vícios? O que é um GIF animado com paleta de 64 cores senão uma clara devastação do senso estético? Para não falar de banners, aberturas em Flash que despedaçam os desenhos de letras, aquele azul calcinha-velha do Orkut, imagens que voam por cima da tela que você tenta ler… antigamente essas sujeiras tinham seu lugar: os guetos escuros do distrito da luz vermelha dos sites pornô. Com o tempo, foram desavergonhadamente invadindo páginas muito mais família até chegarem aos antigamente inocentes ícones do MSN. O mundo foi tomado por uma tsunami de horrores visuais que não parece ter fim. Será o destino ter a paisagem entupida de cores, sons e imagens gritando por atenção, uma feira livre visual que deixaria até uma rua de Hong Kong com vergonha?

Mais do que isso: o que você pode fazer, já que é daqueles poucos que entendem um pouco de design? Como transmitir essa preocupação sem ser tido por rabugento, louco ou - pior - cúmplice dessa sujeira toda?

Para que não o tomem por um radical, é preciso deixar claro que, da mesma forma que os neo-ecos não cogitam tomar uma injeção em seringa de vidro nem fazer parto sem anestesia, o designer de hoje não defende uma vida sem computadores, muito pelo contrário. Tudo o que quer é um pouco de critério - ou “noção”, como se diz por aí.

Você pode começar em casa: para desenvolver seu portfólio, crie sobrecapas de todos os livros que tiver. Isso certamente reduzirá as emissões de feiúra de sua estante. Depois crie cartazes, talvez um bom papel de parede para seu quarto, ou simplesmente o pinte com algo mais bonito que o tradicional branco sujo. Feito isso, considere seu guarda-roupa segundo as principais teorias de cor, Gestalt e Bauhaus. Você está pronto para sair à rua. Afinal, como um um ecologista de respeito não deve fumar, você não pode pregar o bom design vestido feito um comunista de 1966.

Sair a público não significa expor os outros à rabugice que acha tudo feio, mas fazer exatamente o contrário. Pegue um Mangá e um conjunto de canetinhas e tente colori-lo. Pegue revistas e jornais e recicle em embalagens, capas e até carteiras para guardar dinheiro. A minha é feita de uma capa da “Mundo Estranho”, meu PDA tem uma capinha feita de uma página da “Piauí”. Não sabe como fazer isso? Veja na Internet, ué.

Como passamos muito tempo na frente do computador, faça da sua presença virtual algo condizente: escreva textos limpos, faça seu portfólio em AJAX ou PDF, capriche em seus ícones, fotos e apresentações pessoais e - por que não dizer? - nos layouts que você faz, mesmo que o cliente não mereça. Aproveite qualquer tempo livre para compartilhar tudo o que sabe de design com os outros. Eles não vão “roubar” suas idéias, ao contrário do que pensam alguns Zés Manés, mas exatamente o contrário. Quanto mais se discutem conceitos, mais fortes eles ficam, mais inspiração se obtém. Arregimente quem você puder na luta pela diminuição do enfeiamento global, mostre que é para o bem de todos. A longo prazo, essas atitudes refletem em seu benefício.

Essa idéia é open source. Pode ser usada para créditos de civilidade, inteligência, honestidade… não há limites. Ao aplicá-la bem, você ajuda a reduzir a feiúra do mundo. Se der sorte, você poderá vender seus créditos de design para aqueles clientes que, como as empresas e países poluidores, resolvam investir em campanhas de aquisição de créditos de design para diminuir os danos causados ao senso estético público e “revitalizar” sua marca.

Para eles, você pode ser uma verdadeira Amazônia. Tome cuidado para não se devastar.

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